• Por: Maria Rita Werneck

Matriz, quinto disco de Pitty, é lançado e chega como um dos trabalhos mais expressivos da roqueira


Era 2003 e Pitty entrava, definitivamente, para o cenário do rock nacional com o disco “Admirável Chip Novo”. O Brasil passava a conhecer a jovem cantora baiana que, há alguns anos, já traçava sua história roqueira pelas veias (entupidas de AxéMusic) de Salvador e, naquele ano, começava um novo caminho que hoje, 16 anos depois, chega em Matriz, seu mais recente álbum, lançado nesta sexta-feira.

Este é o quinto disco de estúdio da cantora, um diálogo com as suas origens, um reencontro com a “baianidade visceral”, como a própria Pitty colocou em um trecho da entrevista que deu ao site Tenho Mais Discos que Amigos !. Olha como a cantora define esse novo álbum:

“Metaforizando, é como a história de uma blueswoman que sai da plantação de algodão, bota a viola no saco e vai tentar a vida na cidade grande. É uma espécie de retorno de um auto-exílio estético e cultural, e isso só é possível hoje por vários motivos. A passagem do tempo, que nos distância do superficial e nos aproxima da essência, e essa nova cena que renovou o fluxo criativo da minha terra, fazendo com que artistas diferentes possam existir ali. Entre outras coisas mais subjetivas.”

Esse retorno é nítido em “Bahia Blues” (sacou a relação do título com a metáfora acima?), uma das 13 faixas do trabalho. Na canção, Pitty transita por ruas, bairros, lugares de Salvador representativos para a sua história. O bar do pai, a roda de violão onde a música começou a criar raízes e o Café Calypso, antológico bar da cena rock soteropolitana são citados nessa memória musicada que traz à tona importantes passos que deu na cidade até sua partida para "voar". Das belezas naturais da capital baiana, a cor única do céu soteropolitano trazida na frase “Nunca é tarde demais para voltar pro azul que só tem lá”. Só conterrâneos da cantora, como eu, sabem o que representa o céu da nossa terra natal.

Nesse processo de ‘volta pra casa’, Pitty contou com a participação especial de expressivas referências da música baiana. Lazzo Matumbi, um dos maiores patrimônios artísticos da Bahia (e uma das mais belas vozes também), participa das faixas “Noite Inteira” e “Sol Quadrado”. Na primeira canção, a anfitriã fortalece o papel do rock como um instrumento político e manda na lata: “Respeite a resistência ou espere resistência!” A força e importância da união entre as pessoas discorrem pela composição.

O BaianaSystem divide a contagiante “Roda”, uma ode à liberdade de expressão, tendo o povo nordestino evidenciado na letra. Nessa música, percebe-se, claramente, a diversidade sonora conseguida pela inclusão de diferentes elementos e estilos musicais. Isto faz de Matriz um disco plural, que se mantém firme em sua gênese, o rock n' roll. Encerrando as participações estão Nancy Viegas, importante nome do rock de Salvador, e Larissa Luz, um dos principais expoentes do afrofuturismo e afropunk realizado no Brasil. Viegas participa também da faixa “Noite Inteira” e Luz canta “Sol Quadrado”.

Dividindo espaço com as músicas inéditas estão duas regravações. “Para o Grande Amor”, de Peu Sousa, guitarrista baiano, que tocou com Pitty, Marcelo D2 e a banda DeFalla. Um dos últimos trabalhos de Peu antes de morrer, em 2013, foi na banda Nove Mil Anjos, liderada por Júnior Lima. A outra versão é da bela “Motor”, canção de Teago Oliveira (banda Maglore), também cantada por Gal Costa durante os shows da turnê A Pele do Futuro em andamento.

Conquista do autoconhecimento, superação às adversidades da vida e o amor livre são alguns temas encontrados no repertório, a exemplo das faixas “Redimir”, “Submersa” e "Ninguém é de Ninguém.

Matriz chega cinco anos depois do último disco lançado por Pitty, “Setevidas”. Ao lado da cantora nesse projeto estão Martin Mendonça (guitarra e voz), Daniel Weksler (bateria), Guilherme Almeida (baixo) e Paulo Kishimoto (teclados). Todas as faixas foram produzidas por Rafael Ramos (DeckDisc), com exceção de “Redimir”, produzida pelo pernambucano Pupillo, que também tocou percussão, bateria e programação eletrônica.

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