• Por: Maria Rita Werneck

Aos 85 anos, morre Serguei, um dos maiores ícones do rock nacional


Ele tinha orgulho de ser o roqueiro mais velho do Brasil. Inclusive, ele era mais velho do que o próprio Rock n´Roll, já que a primeira música do estilo foi gravada por Ike Turner em 1951; 18 anos depois do seu nascimento, no Rio de Janeiro. Hoje, após a internação desde o início do mês passado para se recuperar de um quadro de anemia, desidratação e infecção urinária, Serguei deixou esse planeta para seguir “sua turnê em outras dimensões.

Esta figura ilustre de Saquarema, cidade da Região dos Lagos, do Rio de Janeiro, onde morava desde 1972 e ajudou a popularizar, se entregou de vez à música depois que conheceu os Beatles e os Rolling Stones. Foi nos EUA, na década de 60, que começou sua carreira como cantor e, ao voltar ao Brasil, quase uma década depois, passou a fazer versões de clássicos do rock, sempre com uma performance muito peculiar, sua marca registrada sustentada com muita maquiagem, cabelos armados e um figurino que o mantinha na mesma época que conheceu a maior roqueira de todos os tempos, Janis Joplin.

A história do seu romance com a cantora, símbolo da Era de Aquarius, o tornou famoso no país, reforçando a imagem mitológica que construiu ao longo de mais de 50 anos de carreira. O nome Serguei é Sérgio em russo e os olhos “azuis penetrantes” - como ele adorava brincar - foram os primeiros com lentes de contato do Brasil. “A medida que o Rock n’ Roll vai esquentando, mais azul eles ficam”, uma das frases do cantor que revelam a sua personalidade divertida.

Antes dos palcos virarem profissão, Serguei foi comissário de bordo de várias empresas, mas não era essa a vida que ele queria para si. Em entrevista a Jô Soares, em 1990, o roqueiro relembrou essa fase e detalhou como reencontrou Janis Joplin, em Copacabana, depois da última vez que se viram nos EUA, quando se conheceram em um festival de música estudantil. A partir desse encontro, os dois partiram para San Francisco, onde viveram juntos por três meses, como contou o artista.

Serguei sempre esteve a frente do seu tempo. Podemos dizer que se ele não foi o pioneiro em muitas coisas, estava entre os primeiros aqui no Brasil. Andrógino, psicodélico, punk. Ele era muitas coisas, ao mesmo tempo que era único. Na casa que vivia em Saquarema, guardava um santuário do rock. Fotos, discos, mais fotos e discos, roupas...tudo virou acervo de um museu dedicado ao estilo musical.

Não se preocupava com a morte e, certa vez em uma entrevista, disse que só se despediria da vida aos 127 anos, cem anos a mais do que viveram a eterna musa Janis e os amigos Jimi Hendrix e Jim Morrison, grandes amigos da juventude ( como reza a lenda).

De 1966 a 2009, foram 11 registros fonográficos, sendo 8 compactos simples, um long play e dois CD’s. Participou de grandes eventos musicais do país, como o Rock n’ Rio - nas edições de 1991, 2001, 2011 e 2013 – e foi destaque da Mocidade Independente, em 2013, quando o festival de Roberto Medina foi o homenageado do enredo da Escola de Samba.

O “Hippie de estrada” virou um ícone nacional, conhecido por muitos, mas pouco celebrado por sua contribuição ao rock nacional. Aos 85 anos, Serguei termina sua estadia nesse plano, mas segue uma nova turnê em meio a luzes mais psicodélicas.Tomara que nessa nova caminhada encontre Sérgio Murilo e Celi Campelo, como disse ao saudoso Antônio Abujamra no programa Provocações (TV Cultura, 2011), quando perguntado o que espera encontrar ao morrer.

“O artista já nasce feito. Não se confecciona como um par de sapatos”.

(Serguei, 1990)

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