• Por: Maria Rita Werneck

Zebra Coreana: Parasita desbanca favoritos do Oscar 2020


Ao mesmo tempo que merecido, foi surpreendente "Parasita" levar para a Coreia do Sul a estatueta de Melhor Filme do Ano. O longa dirigido por Bong Joon-Hu, já tinha ganhado como Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original quando Jane Fonda o revelou como o vencedor do maior prêmio da noite. Devido a resultados anteriores de outras premiações, bolões apontavam Era uma Vez em Hollywood ou Coringa como vencedores, mas a história simbiótica das duas famílias coreanas entrou para a história do Oscar, como o primeiro filme de idioma não inglês a vencer nessa categoria.

Ao lado dos produtores e do elenco brilhante, Joon-Hu agradeceu visivelmente desnorteado, fazendo uma emocionante homenagem a Martin Scorsese, com quem disputava a estatueta. Relembrou a época que estudava cinema e que o diretor de “O Irlandês” era sua fonte de inspiração.

Mas antes desse momento triunfante, a nonagésima segunda edição do Oscar trouxe outros momentos emocionantes, porém, menos surpreendentes, como os já esperados prêmios de Melhor de Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante para, respectivamente, Reneé Zellweger (por Judy: Muito Além do Arco-Íris) e Laura Dern (por História de um Casamento). Brad Pitty ter ganhado como Melhor Ator Coadjuvante também não foi novidade para ninguém, uma vez que o seu personagem em Era uma Vez em Hollywood, o dublê Cliff Booth, lhe rendeu os principais prêmios de cinema. Como sempre, ele enfatizou o prazer de trabalhar com Quentin Tarantino, a quem disse que a presença é fundamental para melhorar o ambiente da indústria do cinema , e Leonardo Di Caprio, que assim como Tarantino voltou para casa sem uma estatueta.

Outro favorito da noite, com 10 indicações, foi 1917, dirigido e produzido por Sam Mendes. O longa que conta a história de dois jovens soldados britânicos durante a I Guerra Mundial levou os prêmios técnicos de Melhor Fotografia e Efeitos Visuais, numa ferrenha disputa com produções, como "Vingadores: Ultimato" e "O Irlandês", que fez uso da computação gráfica para rejuvenescer o trio de atores, Al Pacino, Robert De Niro e Joe Pesci para que eles pudessem transitar na narrativa por várias décadas.

A falta de uma maior participação feminina entre os indicados do Oscar já é tão tradição quanto as piadas sem graça de seus apresentadores, as de de Stevie Martin e Chris Rock logo no início da noite. Quem salvou a categoria de comediantes nessa edição do Oscar foi Maya Rudolph e Kristen Wiig que arrancaram risos dos presentes e com certeza de quem estava assistindo em casa. Mas, voltando a falta de mais mais mulheres indicadas, essa questão não desapercebida graças ao protesto muito elegante da atriz Natalie Portman, que bordou em sua capa o nome de diretoras esnobadas pela academia. É tão bom ver as as pessoas "que tem voz" usá-las para "dar voz" a quem não é ouvido. Joaquim Phoenix disse se sentir grato por poder fazer isso e ele fez questão de mencionar essa gratidão em seus discurso de agradecimento pelo prêmio de Melhor Ator do Ano, por sua versão de Coringa.

O ator pediu que as pessoas tenham mais compaixão entre elas e pelos animais, que não se sintam tão superiores em relação à Natureza e evidenciou que a desigualdade de oportunidades é o grande problema do mundo atual.

“Quando falamos de desigualdade de gênero, racismo, direitos Queer, direitos indígenas, direitos animais, falamos sobre a luta conta a injustiça, falamos da luta conta a crença de que uma nação, um povo, uma raça, um gênero ou uma espécie tenham direito de dominar, controlar, usar e explorar uma outra impunemente.”

Phoenix terminou a fala lembrando de uma citação do irmão, o também ator River Phoenix, morto aos 23 anos, vítima de uma misteriosa overdose.

Outro grandes destaques da noite foi a parte musical da programação. Depois de se apresentar com todo brilho que lhe é devido e de quase fazer Antonio Banderas levantar da cadeira para dançar, Sir Elton John subiu ao palco, ao lado de Bernie Taupin, para receber o Oscar de Melhor Canção Original por “(I’m Gonna) Love Me Again", soundtrack da sua cinebiografia "Rocketman". Em 52 anos de parceria, essa foi a primeira vez que a dupla venceu essa categoria. Outro momento marcante veio do fosso do teatro onde estava Eimear Noome, a primeira maestra a conduzir a orquestra do Oscar durante os mais de noventa anos da premiação. Não podemos esquecer que a revelação do ano pelo Grammy 2020, Billie Eilish, homenageou os falecidos de 2019 e desses dois meses de 2020 da indústria cinematográfica com uma versão intimista de "Yesterday", clássico dos Beatles. Aos 18 anos, ela será a artista mais nova a cantar a música tema de um filme 007 (quem sabe no Oscar 2021 ela não estará entre os indicados?).

Agora, surpresa mesmo foi a apresentação de Eminem na maior celebração do cinema mundial. Depois de um vídeo apresentando grandes temas do cinema, o rapper surgiu cantando “Lose Yourself”, música do filme 8 Miles, vencedora na categoria de Melhor Canção Original, em 2003. Na ocasião, o cantor não foi receber a estatueta porque achava não ter condições de vencer (bobinho). Não preciso nem dizer que a internet parou com a performance que agitou a plateia glamourosa, com exceção de Martin Scorsese que dormiu.

Por aqui pelo Brasil, as expectativas estavam grandes para a categoria Melhor Documentário devido a indicação de "Democracia em Vertigem", da diretora mineira Petra Costa. Se ganhasse, essa seria a primeira vez que uma produção brasileira traria para casa essa estatueta, no entanto, a produção que narra o processo de impeachment de Dilma Rousseff e a crise política no país em 2016 perdeu para "Indústria Americana", documentário sobre os contrastes entre as culturas norte-americana e a chinesa, cuja a produção é assinada por Barack e Michelle Obama .

Antes de encerrar, vamos falar de Jojo Rabbit, uma grande sátira feita ao Nazismo que levou a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado. Por sinal, muito bem escolhido! Depois de tantas produções falarem sobre o regime totalitário alemão com diferentes enfoques, mas sempre com o tom dramático que o assunto requer, Taika Waitti (que além de atuar no filme como Hitler “Shitler” também assina o roteiro) conseguiu dar sarcasmo e ironia a um dos fatos históricos mais sombrios da humanidade, sem perder a responsabilidade social de fazer as pessoas repensarem e lembrarem do genocídio e alienação social provocada pelos fascismo alemão na segunda guerra mundial.

O balanço do Oscar 2020? Coerência. É verdade que o fato de algumas produções não terem sido indicadas - como, por exemplo, "Rocketman" para a categoria de Melhor Figurino - pode ser vista como injustiça. Porém, 2019 foi um ano muito frutífero para o cinema mundial, englobando temáticas importantes para a sociedade como o assédio sofrido pelas mulheres no ambiente de trabalho (O Escândalo), vencedor de Melhor Maquiagem), a violência e a intolerância encontradas na sociedade (Coringa), os governos de extrema direita que ressurgem no Planeta (Jojo Rabbit) e Adoráveis Mulheres (luta pela independência feminina). Por isso, o podemos dizer que nessa edição a margem de erro foi bastante reduzida quando comparada a de anos anteriores, sendo necessário agora que a Academia se torne mais diversa e ousada. Acredito que Parasita ganhar como Melhor Filme do Ano seja um indício do início de uma revolução da premiação.

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