• Maria Rita Werneck

O dia que o Grunge virou Glamour



Ontem, completou 26 anos da morte de Kurt Cobain, líder e vocalista do Nirvana. No auge da carreira e dos dramas pessoais, ele usou uma espingarda para tirar a própria vida, dando um tiro na cabeça em um dos cômodos da casa que morava com a esposa, a cantora Courtney Love, e a filha Frances.


Depois de quase trinta anos dessa tragédia eu não queria usar esse espaço para relembrar detalhes e remoer fatos. Por isso, resolvi homenagear Kurt escrevendo sobre a incrível influência que ele exerceu (e exerce até hoje) em uma indústria que estava acostumada a ditar o que faria sucesso. Depois do lançamento do clipe de 'Smells Like Teen Spirit', no início da década de 90, a indústria fashion viu a "anti-moda" se tornar uma grande alternativa para se revitalizar, tirando-a das ruas e a levando direto às passarelas, um movimento nada comum, mas que acontecia pelo impacto cultural que Cobain estava provocando no mundo.


O mais engraçado é que pouca gente sabe que o ícone fashion Kurt Cobain escolhia suas roupas baseado em dois fatores: preço e se elas esconderiam sua magreza. As peças tinham que ser baratas ao mesmo tempo que não revelassem o físico franzino que ele detestava. Um dos figurinos dele mais emblemáticos são as peças que usadas no programa Saturday Night Show. Nessa apresentação, enquanto muitos o achava descolado e 'cool', ele apenas quis parecer menos magro, daí vestir duas calças em cima de um ceroula e o casaco mais folgado que tinha.



Exatamente em 1992, um jornal americano trouxe a manchete “o dia que o grunge virou glamour", referindo-se ao desfile da Grunge Collection, coleção lançada pelo ainda desconhecido estilista e então diretor da Perry Ellis, Marc Jacobs. A repercussão desse trabalho foi tão negativa que ele acabou sendo demitido do cargo e quase enterrou a carreira de vez. A imprensa especializada não admitiu em primeiro lugar que o estilo de se vestir garimpado nos brechós e em feiras de caridade fosse considerado moda pela alta-costura. Depois de exalarem o preconceito pelo 'street wear', era inadmissível para os fashionistas que toda uma coleção fosse inspirada sem a realização de umapesquisa de campo pelo seu criador. Não entendeu? Deixa eu explicar.

Foto do desfile da Grunge Collection - 1992.

Marc Jacob não teve nenhum problema em assumir que nunca pisou em Seattle (berço natural da 'moda' grunge) para ver de perto o movimento cultural do Grunge que inspirou a sua coleção. Ele quis transformar algo em tendência sem mesmo conhecer, profundamente, o objeto a ser tendenciado. Eu não se interessou nem em saber o que motivam as pessoas a buscarem roupas super baratas, surradas (muitas vezes) e que eram um tapa na cara de tudo aquilo que defendia: roupas caras, com tecidos sofisticados e peças que valiam quase um carro usado na época.


Na época, entre 1992 e 1993, não se tinha dimensão sobre os impactos positivos que desastre fashion da coleção de Jacobs deu à cultura grunge de maneira geral. Nunca antes na história da moda mundial, a indústria fashion saía da sua zona de conforto atrás de algo que já era tendência e criada nas ruas, tendo como principal ícone uma figura que se vestia de forma minimalista, barata e que rejeitava o consumismo fútil, não fazendo nenhuma questão de estar naquele meio glamouroso.


Outro ponto bastante importante a ser dito é que o Grunge já estava em altos patamares e era levado às passarelas como uma alternativa para oxigenar a moda noventista, já sufocada por um mercado que não se renovava fazia tempo. Agora, as camisas de flanela eram as novas galinhas dos ovos de ouro. E põe ouro nisso. Dentro desse novo conceito que elas recebiam, teve grife vendendo uma única camisa por US$ 300. Um disparate, uma vez que no mundo grunge, a mesma poderia ser comprada por US$ 2.


Tal absurdo criou mais imbróglios, desta vez com os fãs do gênero musical. As revistas e jornais da época adoravam publicar cartas de pessoas que falavam sobre apropriação cultural e sobre como viam a deturpação de uma estética em prol do dinheiro. Ofendidos e explorados, não aceitavam a realidade que cachecóis de caxemira, inspirados nos que o público e bandas grunges usavam eram vendidos por US$ 1000, quando poderiam ser comprados por US$ 1.


Enquanto parte da crítica e dos fãs embrionários do grunge esperneavam de um lado, do outro mais grifes investiam na sub-moda que agora estava até no cinema. O filme Vida de Solteiro, dirigido por Cameron Crowe, foi um espelho do que era a vida dos jovens de Seattle. Seus sonhos, dramas e desejos eram apresentados muito fielmente, sendo o personagem de Matt Dillon o mais próximo daquela geração.



Ele era Cliff Poncier, um roqueiro que almejava a fama ao lado de seus parceiros de banda, entre eles Eddie Vender, já conhecido com o Pearl Jam. Ah! Como o nosso assunto aqui é moda, não podemos esquecer que boa parte do figurino de Dillon neste filme veio diretamente do guarda-roupa de Jeff Ament, baixista do Pearl Jam. Integrantes de outras bandas, como Soundgarden e Alice in Chains, também fizeram parte do casting do longa lançado em 1992.


Com tudo isso, a publicidade da moda grunge era espontânea e a indústria fashion não precisaria gastar tanto com publicidade como de costume para incutir na mentes das pessoas o desejo no lugar da necessidade. No início dos anos 90, muita gente estava familiarizada com estilo despojado e confortável de se vestir. No rock, o momento era do Grunge. Na MTV, o canal mais legal do momento, Smells Like Teen Spirit não parava de aparecer. Os maiores prêmios da música iam para o Nirvana. O trio não saia das principais capas das revistas, a agenda de shows era lotada por todo o mundo. Todos queriam ver de perto a evolução do punk rock em forma de três rapazes que começaram a tocar sem a mínima pretensão de se tornarem o fenômeno que são até os dias atuais.




Apesar de toda essa exposição, não era nas grifes que as pessoas compravam suas roupas grunges. Quem buscava de verdade cheirar como um espírito adolescente, em liberdade, ou fazia suas próprias roupas, as customizando, ou as comprava nos supermercados, feiras de ruas e brechós filantrópicos, assim como seus ídolos faziam. Daí um grande problema para os empresários fashionistas: como despertar a necessidade de gastar quase mil vezes mais para se vestir?


Desde 1990 até hoje, leva-se, mais ou menos, de 2 a 3 anos para um conceito desfilado em uma passarela se popularizar, virar 'moda articulada'. Com a moda grunge não deu tempo. O ápice do estilo musical foi de 1991 a 1993. A primeira tentativa de promoção da indústria fashion foi em 1992, pela Revista Vogue. Em 1994, Kurt Cobain se matou e o gênero já estava em declínio, apesar do impacto da morte do ídolo do Nirvana ter voltado e reforçado todas as atenções para o estilo. No entanto, as circunstâncias que ele partiu bloqueou qualquer tipo de uso da sua imagem para fins lucrativos, principalmente, voltados para assuntos fúteis.


Mas sobre isso há uma ressalva.


Apesar de não fazer muita questão de um guarda-roupa diverso, Kurt não abria mão de seus tênis All Star Converse. Quando ainda era anônimo, o calçado já não saia dos seus pés. Depois da fama, continuou para cima e pra baixo com ele, fazendo uma propaganda inconsciente para a marca que saiu da falência depois que as vendas aumentaram vertiginosamente devido a aparição constante em shows, programas de TV e videoclipes. Nem o fato de Cobain está calçando um modelo na hora de sua morte e disso ser revelado ao mundo através de uma foto que vazou, impactou negativamente as vendas. Quase uma década depois do seu suicídio, em 2003, a Nike comprou a marca por US$ 305 milhões.




Mais uma vez o Grunge levava oxigênio para algo que estava à beira da morte.


O que podemos afirmar, 26 anos depois da morte de Kurt Cobain? Ao meu ver, que ele influenciou muito mais do que apenas a música, com certeza. A sua linguagem e discurso transformaram um cenário cultural viciado pela mesmice, pela preguiça e medo de se reinventar. Ele não buscou se tornar um ícone da moda. Pelo contrário. Mas a sua irreverência, consciência sobre o poder da sua voz e fala, esquisitice (por que não?) conquistaram o mundo. Infelizmente, as fortes dores estomacais o fizeram se entregar, cada vez mais às drogas, em principal à heroína. Os dilemas pessoais criaram fantasmas que não o deixavam ver a pessoa talentosa e interessante que era. No dia 05 de abril de 1994, mesmo com a nova vida que surgia a partir do nascimento de sua única filha, ele preferiu sair desse mundo achando que isso seria a melhor coisa a fazer, principalmente, para a sua bebê Frances.




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