• Maria Rita Werneck

Sidarta no Rock Progressivo


Depois de mais um dia de quarentena, home office e tantas mortes (entre elas a do grande compositor Aldir Blanc e do ator Flávio Migliaccio), eu resolvi ouvir Leila Pinheiro para acalmar a alma e a mente que estão em constante alerta com a surreal situação do mundo e com os absurdos que estamos vendo de quem deveria dar o exemplo nesse país. Mas como Aldir e João Bosco disseram: O Brasil não merece o Brasil, mas podemos ajudar a construir um país melhor e isso começa dentro da gente.


Mudei, portanto, a dica do #DaOrelhaAoFim desde mês. Resolvi antecipar o livro Sidarta, de Hermann Hesse, para esse maio que está mais frio e turbulento do que nunca. Esta obra alemã, lançada em 1922, no pós- I Guerra Mundial, é justamente um manifesto lúdico pela busca do auto-conhecimento, da construção de uma mente mais leve e desprovida de apegos materiais e livre de ânsia pela o saber adquiridos "extra-nós". Resumindo: quando ele foi publicado no início do século passado, o mundo estava devastado material e espiritualmente por causa do conflito bélico e eu achei que agora, quando o mundo novamente se encontra perdido frente a uma pandemia que trouxe um cenário incerto e inconstante em vários sentidos, as linhas de Hesse pela Índia antiga poderia abrir novas janelas nas mentes que seguem em busca de calmaria.


Através do personagem Sidarta - filho de uma abastada família de brâmanes (uma casta superior indiana) que abandona todo o conforto e segurança de um futuro promissor para peregrinar em busca da plenitude espitual - Hermann, inspirado pela mitológica história de Sidartha Gautama (mais conhecido como Buda), contou a sua passagem pela Índia. Muito do ele viu, ouviu e sentiu no sagrado chão de Shiva e de outros deus indus ele depositou ludicamente nesse romance. A experiência que o escritor teve durante a própria busca pelo autoconhecimento fazem parte da trajetória do jovem peregrino.


Mais de quarenta anos depois do seu lançamento, Sidarta volta ser um dos livros mais comentados e lidos do mundo. A guerra do Vietnã estava acontecendo e os sentimentos de rejeição à violência, ao apego material e o desejo da construção de mentes livres e plenas ganham forças, principalmente, entre os jovens. O livro passa a ser um dos preferidos dos hippies, inspirando-os.


Quem também foi influenciado por Sidarta foi o grupo Yes. Em 1972, a banda progressiva lança Close to the Edge, considerado o mais representativo trabalho da banda. Formado por 3 faixas épicas, a primeira, homônima ao álbum foi totalmente inspirada pelo romance de Hesse. A canção de 19 minutos foi dividida em várias partes que recriam, sonoramente, algumas ideias do romance Sidarta como, por exemplo, os conflitos entre o mundo espiritual e material vividos pelo personagem. O início caótico da melodia representa a confusão interna e o desejo desesperado pelo conhecimento que levará o indivíduo ao Nirvana ou à plena sabedoria. No entanto, nunca foi confirmado pelo grupo que o disco foi uma tentativa de reprodução da obre de Hesse, que em 1946 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.


Considerado um dos indispensáveis discos da discografia do rock progressivo, Close to the Edge foi o último disco que o baterista Bill Bruford gravou com o Yes. Assim que terminaram as gravações, ele foi para o King Crimson.




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